E de repente me peguei pensando sobre uma determinada pessoa do passado. O real motivo de ter revivido aquelas memórias? Um simples passar de olhos por uma feição semelhante, que estava sentada a alguns metros de mim. Claro que não pude evitar o fluxo intenso de sensações e sentimentos que me invadiram como um turbilhão. Ela tinha sido um grande amor, ou pelo menos assim me parecia naquela época. Não sei muito bem o que falar do amor. Acho que não conheço tal sentimento o suficiente para discorrer a respeito, embora eu o sinta percorrendo por minhas veias quando me vejo perto de pessoas queridas. Mas é claro que me refiro à ideia de amor romântico, quando se vê naquela outra pessoa uma série de projeções feitas por si mesmo e encaixadas forçadamente em um receptáculo humano. Não é à toa que os amores platônicos são os mais sofríveis, considerando-se o limitado contato que se possui com o alvo de tanto afeto. E, ainda que na época eu sofresse todas as mazelas de um amor não correspondido, pareceu-me, no instante em que revivia tais memórias, que aquele momento do passado havia representado uma experiência de vida única. Havia representado um momento em que eu de fato estivera vivo, sentindo a profundidade dos relacionamentos interpessoais afetarem minha vida diretamente, como se o amor houvesse me tirado daquela visão ensimesmada para fazer-me colocar os olhos em outro ser humano de tanta ou mais complexidade do que eu. O tempo não mais era gasto com aquelas questões irresolutas da alma, mas sim com as expectativas de consumir a outra pessoa por inteiro, de forma a compreender seu modo singular de existir e compartilhar com ela as questões que diziam respeito à individualidade. Mas aquilo era possível? Por que eu insistia em acreditar em tais coisas? Não podia justificar o idealismo baseando-me em uma falta de convivência, pois havia uma convivência frequente com o ser em questão. Ainda assim, diante da consciência de todos os defeitos e qualidades intrínsecas do alvo de tão imediato sentimento, cuidei para moldar os traços de sua personalidade àquelas projeções do companheirismo perfeito, tecidas em minha mente ao longo do tempo. Talvez fosse a falta de reciprocidade o que me mantinha naquele estado lamentável de obsessão, o qual eu disfarçava com o nome de "amor". Se o amor se esgotou? Não sei se isso é possível. Não sei quais são os limites de tais sentimentos. O que sei é que aquela ânsia de fundir-me à ela cessou depois de um tempo e, o que sobrou foram cicatrizes de pensamentos afetivos no cérebro metafísico, o que se pode chamar de alma, segundo alguns. No momento, o fim do sofrimento foi um alívio, naturalmente, mas soubesse eu que aquela dor em especial se tratava da mais prazerosa que eu pudesse sentir, haveria lutado com unhas e dentes para não deixar escapulir de mim tão sublime sentimento.
Talvez eu não possa mais voltar à ser aquela pessoa de antes. Bem, a verdade é que aí não há um "talvez", pois o que eu sou agora não é mais o que eu fui no início ou no meio desse texto. A mutação da mente é contínua, pois as experiências são intermináveis enquanto se existe. Não há momento algum em que deixamos de experienciar as coisas, de um modo geral. E mesmo tendo consciência de tudo isso, eu, sem pestanejar, faria uma barganha para recobrar aquela inocência perdida, nem que fosse para encarar o sofrimento de um amor unilateral.
Um comentário:
"Dizem que a separação nunca é um núcleo, uma urgência. Dizem que ela começa em seu avesso. E que é justamente no olhar, que a sepação começa a existir. Eu prefiro acreditar que a separção nunca termina, e que o último dia, a última noite, é um
instante que se repete, a cada espera, a cada volta, cada vez que sinto a tua falta,
cada vez que pronuncio teu nome. Eu acredito que, ao te chamar, uma estratégia, um encanto, eu seja capaz de fazer com que você se vire e olhe, e, sem perceber,
estenda entre nós um atalho, uma ponte."
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