quinta-feira, 30 de junho de 2011

Clara

Clara estava apoiada no parapeito da sacada. Lino estava deitado em uma daquelas confortáveis redes, impedindo a comunicação entre o começo e o fim da sacada. Não é que era impossível de se chegar até Clara, era apenas que o rapaz balançava tão freneticamente na rede, que temia-se ser atingido ao tentar uma travessia abaixado. No fundo, era a intenção de Lino encurralar a garota, de forma que ela fosse obrigada a dar explicações sobre certas atitudes. É que alguns seres humanos agem desse jeito quando estão frente a alguém que não conseguem compreender muito bem. Exigir explicações é um meio desesperador de se conseguir um contato indireto com o estado de espírito da pessoa. Não que seja a melhor coisa a se fazer a respeito. A bem da verdade, não há muito para onde se correr quando as pessoas incomuns fecham-se para o mundo.
Clara fumava um cigarro, cuidando para soprar a fumaça para a noite, como se aquele ato fosse um tipo de homenagem aos céus. Vindo de qualquer pessoa, o simples ato de fumar pareceria corriqueiro e até mesmo burro, considerando-se a negatividade advinda do danoso hábito. Mas em Clara parecia um gesto tão sublime, tão harmônico, que era impossível, até mesmo para um não fumante, condená-la por impregnar o ar com o cheiro característico. Mas isso era algo que não acontecia com frequência, pois a garota não gostava de desperdiçar aquela fumaça exalada com os seres à sua volta. Era sempre para a noite, mesmo que fosse obrigada a torcer o próprio corpo em um ângulo bizarro, de forma a garantir que nada abraçasse aquela expiração super produtiva. Não era viciada. Deus, não mesmo! Conseguia ficar várias semanas sem colocar um cigarro entre os lábios, mas havia algo de confortante em meio a momentos de extrema reflexão. Bem , aquele era um deles, embora estivesse sendo interrompida pelo rapaz repleto de dúvidas triviais a respeito de sua personalidade. Ah, como se irritava com aquele minimalismo humano!
- O que há com você? - Lino balançava ainda mais rápido, indicando o nervosismo que se instalava em seu corpo por começar aquela conversa. Era como se já soubesse o desfecho do diálogo.
- Não há coisa alguma comigo. Apenas eu mesma. Apenas o que sempre foi. E o que sempre será.
- É Deus?
- O que tem Deus?
- Essa sua aflição.
- Não tem nada com Deus, Lino. Nada com...
- É comigo? - ali estava. O rapaz acabara de se enfiar na espiral de mediocridade em que os seres humanos insistem em se lançar com violência. Resumir discussões e estados aflitivos a relações interpessoais é no mínimo desconsiderar uma torrente de pensamentos e sentimentos que um ser humano pode levar consigo. Seria aceitável, não fosse pela complexidade de sensações que se instalavam em Clara. O triste, nesse quadro, era que o rapaz nem ao menos estava incluso em qualquer um de seus desapontamentos e alegrias. Era apenas mais um ser humano com o qual tentava se relacionar, do qual tentava extrair um grau de importância demasiado.
- De Deus até você, Lino, existe uma grande distância.
- E isso quer dizer?
- Quer dizer que eu fico com o silêncio. Quer dizer que escolho minha individualide. Quer dizer que a solidão... A solidão... - e deixou a mão parar  no ar em um gesto explanativo. Para ela estava tudo esclarecido. Estivera há tempos. Silenciou-se novamente, deixou a mão voltar ao parapeito e fitou o Cinturião de Orion. A comunicação das estrelas. Que harmonia! O movimento sutil dos astros, imersos na matéria escura. Isso sim era algo digno de atenção, naquele momento. Pensou em como seria flutuar pelo vácuo, apenas observando o funcionamento daquele vasto espaço de escuridão. - O universo! - disse em voz alta. - Os planetas, as estrelas, a matéria escura, a matéria em geral, os átomos, elétrons, quarks. A movimentação exacerbada para que tudo permaneça simplesmente parado. A falsa impressão que temos sobre objetos sólidos; de que estão realmente parados. Por que se simplifica coisas tão grandiosas? - Clara não falava com Lino. Conversava com seu lado material, aquele responsável por puxá-la para a normalidade da vida humana. Aquele que queria desesperadamente suprir necessidades fisiológicas, como alimentação, excreção e... sexo! Como se irritava com essas exigências carnais!
Por ora, a batalha estava vencida. Nada o corpo pediu. Apenas compartilhou a sensação maravilhosa que Clara experimentava. Ainda que irritante, o corpo humano era bastante solícito. Entregava-se às exaltações do espírito com a maior vontade possível, liberando uma descarga de substâncias químicas que aumentavam ainda mais as emoções.
- Quero tudo! - disse ela, voltando-se para Lino. - Compreende?
- Não. Quero pouco. Quero você.
E mais uma vez, Clara se arrependeu do breve contato humano. Voltou-se para as estrelas e deu um último trago no cigarro. Sorriu ao direcionar o sopro da fumaça para o Cruzeiro do Sul.
- EU! - disse em voz alta.