Inevitavelmente, em um domingo comum, comecei a pensar no rumo que minha vida tinha tomado. A partir de que momento eu havia começado a fazer as escolhas que me trariam até aqui? Existira alguma força maior, condicionando meu pensamento, para que me fizesse chegar a essa situação? De certa forma, era aliviante pensar dessa forma, pois estaria colocando as consequências de minhas próprias escolhas nas mãos de outro ser que não eu. Não porque eu não conseguisse admitir minha própria culpa em relação ao meu destino, mas sim porque a busca por uma organização superior, um plano maior, era algo cravado em minha essência. E como poderia não ser? Eu detestava o acaso e essa era uma verdade. Primeiramente porque o acaso me colocava na mesma posição supostamente insignifcante de todos os seres viventes do planeta. Por que eu, logo eu, faria parte daquele conjunto de atitudes e pensamentos mecânicos que consistiam a vida humana? Como aceitar o fato de que tudo isso era a troco de nada, mero reflexo do acaso? Era tranquilizante pensar em um planejamento prévio, como se eu estivesse, naquele momento, exatamente onde deveria estar, de modo que eu me deparasse com as experiências necessárias para minha vida. Mas então, a partir daí, onde eu acabaria? Quero dizer, caso tais experiências se tratassem de algo pelo qual eu tivesse de passar, qual era o motivo? A simples construção de meu caráter e de minha humanidade não eram motivos suficientes para justificar a ideia de um plano. Sendo assim, eu teria que pensar em uma possível justificativa e, qual seria essa senão a de que eu estava destinado a contribuir de modo singular para a existência de um modo geral? Isso, certamente, me colocava em uma posição privilegiada em relação aos outros seres humanos e, se assim fosse, por que o privilégio era meu? O que me levava a um grau de importância elevado em detrimento de outros seres humanos? Por que existiria tal discrepância? Além do mais, se apenas alguns humanos fossem destinados a coisas grandiosas, então não haveria explicação para a existência de pessoas comuns. Ou qual seria a função delas? Serem influenciadas pelos grandes expoentes da humanidade, desempenhando um papel secundário? Não era fazer tão pouco da individualidade alheia?
Havia alguma escapatória para esse impasse? Existia um modo de condicionar meu pensamento, de forma que resolvesse essas questões sem criar inúmeros paradoxos em cada teoria? Não conseguia pensar em algo que resolvesse todas as questões que permeassem minha mente. Por isso, naquele domingo, pensei em uma fuga. Pensei em colocar as coisas essenciais em uma trouxa e partir, sem um destino certo. Pensei em um recomeço, onde me fosse possível ser algo que coubesse apenas às minhas próprias vontades. Quis assumir uma nova identidade, me deixar ser guiado pelo sentimentalismo exacerbado que se instalava em meu peito. Em resumo, pensei na felicidade plena, mesmo que fosse em um casebre qualquer, na beira da rodovia de Alagoas, sob a precária iluminação pública, dedicando meu espírito às questões interiores e representando os irrefreáveis conflitos em uma página em branco. A decadência social não me incomodou, apenas o fracasso de minha satisfação. A frustração era minha arquiinimiga e, naquele exato momento, pensei em extirpá-la de minha vida com a maior crueldade possível.
Entretanto, considerei as condições inerentes para se existir, enquanto um membro da sociedade. Não era concedido ao ser humano a paz de simplesmente ser. Era necessário que se assumisse uma missão, ainda que medíocre, que contribuísse de alguma forma para a sociedade, contribuição essa medida pelo dinheiro. Dinheiro! O imprescindível para se viver. Como havíamos nos encaminhado para essa situação desesperadora? A partir de que momento havíamos consentido com a realidade brutal e massacrante de tal sociedade? Onde estava nosso livre-arbítrio de ir e vir quando bem entendêssemos?
E de súbito, não pude deixar de me sentir aprisionado. O mundo não me pareceu o bastante, evidentemente. Quis, imediatamente, visitar outros planos. Quis vagar pelo extenso universo, testemunhando a maravilhosa dança da criação. Quis fechar os olhos e bloquear minha audição, deixando meu pensamento vagar pelo meu próprio interior, em busca de paz. Paz! Que sentido sublime tal palavra adquiria no momento!
No fim das contas, fui derrotado. A coragem para uma jornada puramente dadaísta me faltou. Novamente, sucumbi às monstruosas regras da humanidade para que pudesse garantir minha estabilidade. Eu queria continuar existindo e, sendo assim, eu deveria consentir com as convenções sociais. Mais uma vez, senti uma parte de mim morrer. Enxerguei novamente a inevitável escuridão da alma. As lágrimas de um prisioneiro torturado fizeram caminho por meu rosto e me deixei cair na cama, exausto demais para continuar reconsiderando minha decisão. O sacrifício da felicidade, para que pudesse simplesmente ser!
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