quinta-feira, 14 de abril de 2011

Do amor e da dor

E de repente me peguei pensando sobre uma determinada pessoa do passado. O real motivo de ter revivido aquelas memórias? Um simples passar de olhos por uma feição semelhante, que estava sentada a alguns metros de mim. Claro que não pude evitar o fluxo intenso de sensações e sentimentos que me invadiram como um turbilhão. Ela tinha sido um grande amor, ou pelo menos assim me parecia naquela época. Não sei muito bem o que falar do amor. Acho que não conheço tal sentimento o suficiente para discorrer a respeito, embora eu o sinta percorrendo por minhas veias quando me vejo perto de pessoas queridas. Mas é claro que me refiro à ideia de amor romântico, quando se vê naquela outra pessoa uma série de projeções feitas por si mesmo e encaixadas forçadamente em um receptáculo humano. Não é à toa que os amores platônicos são os mais sofríveis, considerando-se o limitado contato que se possui com o alvo de tanto afeto. E, ainda que na época eu sofresse todas as mazelas de um amor não correspondido, pareceu-me, no instante em que revivia tais memórias, que aquele momento do passado havia representado uma experiência de vida única. Havia representado um momento em que eu de fato estivera vivo, sentindo a profundidade dos relacionamentos interpessoais afetarem minha vida diretamente, como se o amor houvesse me tirado daquela visão ensimesmada para fazer-me colocar os olhos em outro ser humano de tanta ou mais complexidade do que eu. O tempo não mais era gasto com aquelas questões irresolutas da alma, mas sim com as expectativas de consumir a outra pessoa por inteiro, de forma a compreender seu modo singular de existir e compartilhar com ela as questões que diziam respeito à individualidade. Mas aquilo era possível? Por que eu insistia em acreditar em tais coisas? Não podia justificar o idealismo baseando-me em uma falta de convivência, pois havia uma convivência frequente com o ser em questão. Ainda assim, diante da consciência de todos os defeitos e qualidades intrínsecas do alvo de tão imediato sentimento, cuidei para moldar os traços de sua personalidade àquelas projeções do companheirismo perfeito, tecidas em minha mente ao longo do tempo. Talvez fosse a falta de reciprocidade o que me mantinha naquele estado lamentável de obsessão, o qual eu disfarçava com o nome de "amor". Se o amor se esgotou? Não sei se isso é possível. Não sei quais são os limites de tais sentimentos. O que sei é que aquela ânsia de fundir-me à ela cessou depois de um tempo e, o que sobrou foram cicatrizes de pensamentos afetivos no cérebro metafísico, o que se pode chamar de alma, segundo alguns. No momento, o fim do sofrimento foi um alívio, naturalmente, mas soubesse eu que aquela dor em especial se tratava da mais prazerosa que eu pudesse sentir, haveria lutado com unhas e dentes para não deixar escapulir de mim tão sublime sentimento. 
Talvez eu não possa mais voltar à ser aquela pessoa de antes. Bem, a verdade é que aí não há um "talvez", pois o que eu sou agora não é mais o que eu fui no início ou no meio desse texto. A mutação da mente é contínua, pois as experiências são intermináveis enquanto se existe. Não há momento algum em que deixamos de experienciar as coisas, de um modo geral. E mesmo tendo consciência de tudo isso, eu, sem pestanejar, faria uma barganha para recobrar aquela inocência perdida, nem que fosse para encarar o sofrimento de um amor unilateral. 

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Tudo ou tudo

É o tudo ou tudo. Comigo sempre foi assim. Desde que me entendo por gente vou sempre no âmago da questão. Uma intensidade imedida. Um coração apertado. De escudo e arma, me jogo no campo de batalha, levando as pancadas de todos os lados. Ou o sonho, ou a frustração. Ou o amor, ou a indiferença. É sentir a felicidade exacerbada, ou a melancolia sufocante. É a solidão massacrante ou a auto-suficiência completa. Mas espere lá, não estou sendo justo. Existe uma exceção. É que a penumbra me conforta. Talvez seja a intensidade luminosa sob medida, representando o equilíbrio dos extremos. Talvez seja esse pavor da escuridão, já que a escuridão representa esse vazio tão grande. Acredito que a escuridão seja o não-ser e, bem, diante disso, como poderia me sentir confortável? Para a existência há um só extremo: ou existo, ou existo. Ou então seria tudo ou nada, e o nada não me agrada. Acho que odeio o nada, pois talvez não o compreenda. Odeio o nada assim como odeio o escuro, uma representação fidedigna do que seria o nada, embora eu pense no nada como branco às vezes. Mas para mim, é o tudo ou o tudo. Menos para a escuridão. Para ela e para o nada, me recuso a adotar extremos. 

Rêlampago

Era uma madrugada chuvosa e eu dormia pacificamente, ou pelo menos acredito que assim era, pelo simples fato de não me recordar de algum sonho. Digo que isso é característica de um sono pacífico, pois somente nesse tipo de sono é que a mente consegue repousar. É como se deixássemos de existir por aquele breve intervalo de tempo, ainda que cedo ou tarde sejamos acometidos por algum apanhado de imagens coerentes ou não. O ponto é que eu estava descansando de fato, quando repentinamente acordei junto ao barulho de um trovão. Ai como aquilo me atingiu intensamente! É que fui lançado com extrema violência à existência repentina, como se aquele violento choque despertasse coisas adormecidas em minha mente. Não vou dizer que nunca havia passado por uma experiência daquela. Era extremamente natural que essas situações se repetissem durante meu sono. Mas é que havia tanto tempo eu não dava a devida importância a essas questões existenciais, que me vi sem escapatória alguma, a não ser resolvê-las naquele momento, ainda que de forma paliativa. 
"Existo" era a questão primordial a lidar. Como poderia sequer compreender o processo tão complicado de existir? Somado a isso, havia o fato de eu ser eu mesmo, imerso naquele lamaçal de solidão impossível de se sair. Eu estava encarcerado em uma prisão mental tremendamente fúnebre, pois naquele momento cogitei o fim de minha vida. Naquele exato momento, sujeitei-me às viscissitudes da matéria e coloquei-me como um ser passível de sofrer a morte. Lembrei-me instantaneamente de uma frase do livro "Mrs. Dalloway", da magnânima escritora Virginia Woolf: "É possível morrer". Não havia coisa alguma que eu pudesse fazer para fugir da espiral de sensações. Por isso, me entreguei completamente àqueles sentimentos que diziam respeito a tudo o que era, até levar minha própria mente à exaustão. E sob o pretexto de amenizar o cansaço, deixei que os pensamentos afundassem na escuridão das incertezas. 

terça-feira, 12 de abril de 2011

Eu

Eu, que me sentia tão inteiro, tão completo, tão auto-suficiente. Eu, que via na própria existência um motivo de tudo ser. Eu, que me considerava a prova viva de que tudo era o que era, simplesmente por eu ser. Eu, que via a morte como um absurdo completo, quando se tratava de mim. Eu, que carregava a individualidade como um brasão, esfregando-a nos olhos de quem quisesse ver. Eu, outrora tão cheio de mim, encantado pelo próprio brilho, ofuscado pela própria luz. Eu, que me fechei para mim, como um inseto qualquer em sua crisálida. Eu, que condenava o remédio da solidão. Eu, que estava me desintegrando. Eu, que afundava num abismo infinito, tateando por qualquer apoio. Eu, que me desmantelava diante da ignorância existencial. Eu, que sofria de eterna insatisfação. Eu, que tinha carência de respostas. Eu, que nunca aceitava as trivialidades como algo positivo. Eu, que permaneço assim, a observar tudo como se nunca houvesse pensado em coisa alguma. Eu, que me lanço para o longe e imploro pelo próximo. Eu, que não sei existir de outro jeito. Eu!

O (des)equilíbrio

Ainda ali entrava um resto de luz, iluminando as pequenas partículas de poeira, que pareciam pairar no ar. Até aquela imagem aleatória possuía algum sentido nefasto. Como poderia não ser assim? Quando se enxerga apenas a desarmonia estrutural de forma generalizada, não se pode dar valor às ínfimas coisas atribuídas à trivialidade. O corriqueiro se torna enfadonho, justamente por fazer parte da falta de sentido. Qualquer relato banal de qualquer fato comum torna-se uma pancada direta no cérebro; um chacoalhão no estômago, provocando a ânsia de se deixar aquilo sair, como um golfo pálido carregando a matéria danosa responsável pelo ferimento. Vasculha-se a mente à procura de uma explicação coerente para aquilo que é a morte em vida. O que se ganha é a derrota pela exaustão. Os pensamentos ficam assim, como que num torpor, em estado de latência. E o corpo? Continua seu trabalho preguiçoso de manter as coisas dentro do comum.

Digamos

Digamos que a vida é assim simples. Vamos lá. Digamos que estamos satisfeitos com o cotidiano. Digamos que a satisfação plena é possível. Digamos que a solidão pode ser exterminada. Digamos que a melancolia não faz parte de nossa miríade de sentimentos. Digamos que estamos satisfeitos com a sociedade. Digamos mais. Digamos que compreendemos o sentido de existir. Digamos que entendemos os planos divinos. Digamos que a aleatoriedade dos eventos da criação são compreensíveis, caso não existam planos divinos. Digamos que é possível compreender a infinitude ou a finitude do universo. Digamos que a existência não é dolorosa. Digamos, apenas para ouvir o som dessas palavras que podem ser encaixadas em outra realidade. Digamos, apenas da boca para fora. Digamos, para transformar o dito em sentimento. Digamos, apenas por dizer.