sábado, 7 de maio de 2011

Controle

Era algo que nunca havia passado pela minha mente, o fato de haverem seres humanos desalmados. Quero dizer, ainda que prezasse pela minha individualidade, nunca havia me analisado fora das generalizações. É que, por ser um humano, ou pelo menos habitar o corpo de um, acabava buscando para mim mesmo respostas que satisfizessem a condição existencial como um todo. No entanto, diante do fato de nunca ter perdido a consciência por meios comuns e, leia-se aí o uso de entorpecentes, passei a acreditar que eu exercia um controle diferenciado sobre meu corpo. Não é que eu não sofra efeitos do álcool, por exemplo, é apenas que sou capaz de resgatar a coerência dos pensamentos quando bem entender. Ora, a que mais poderia atribuir isso, a não ser à persistência de minha alma em manter o controle? Sendo assim, isso implicava necessariamente que os outros seres humanos incapazes de exercer tal controle fossem desprovidos de uma alma? Ou significava apenas que eram tão apegados à matéria a ponto de sucumbirem ao controle do sistema nervoso central?
Claro que essas coisas me afetavam, pois o fato de me sentir diferenciado influenciava minhas observações acerca da humanidade. É porque eu tinha ânsia em provar a mim mesmo que a solidão não era real, mas que era apenas fruto de uma perspectiva inexorável, de uma armadilha masoquista em que me havia feito cair. Se eu de fato acreditava nessa prova? Evidentemente que não. Para que tal sensação me deixasse, eu devia me transformar em todos os seres e, bem, apenas um ser possuía essa propriedade. E meu nome não era Jeová. 

4 comentários:

Rodrigo disse...

Eu, em minhas concepções, atribui a necessidade de ter sempre o controle das coisas como uma forma desesperadora de garantir que nada me faltava.Penso hoje que a ausência do controle não implica na ausência da alma, e sim a uma forma leviana, menos árdua, de viver.
Parabéns pelo seu blog,também faço parte do grupo dos existencialistas em conflitos!

Thiego disse...

Eu acho que as pessoas estão "dormindo" e não conseguem experimentar uma vivência profunda. Eles vivem no modo "zombie". Todos têm alma. Só que alguns são mais evoluídos que outros!

grazi shimizu disse...

e eu descobri que é possível perder o controle sem nenhum esforço para isso, e que alma é parte de nós tanto quanto um simples pêlo é também. no fim do presente (que é o começo também), não temos pêlo, corpo ou alma. não temos jeová também. (você ainda faz parte da minha vida)

Daniela Gomes disse...

Controle:"uma forma... menos árdua de viver";

De fato vc coloca claramente sua consciência persistindo no controle do ego.

Gostei do blog.